{"id":5056,"date":"2022-11-08T16:07:00","date_gmt":"2022-11-08T16:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/teo.com.br\/?p=5056"},"modified":"2022-11-08T16:07:00","modified_gmt":"2022-11-08T16:07:00","slug":"costumes-preenchimento-das-lacunas-do-ordenamento-juridico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/2022\/11\/08\/costumes-preenchimento-das-lacunas-do-ordenamento-juridico\/","title":{"rendered":"Costumes: preenchimento das lacunas do ordenamento jur\u00eddico"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\" id=\"titTopico\">Costumes<\/h1>\n\n\n\n<p>Costume \u00e9 um dos meios de integra\u00e7\u00e3o do direito, um dos meios de preenchimento das lacunas do ordenamento jur\u00eddico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Costumes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O costume \u00e9 um dos meios de integra\u00e7\u00e3o do direito, ou seja, um dos meios de preenchimento das lacunas do ordenamento jur\u00eddico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s normas do Direito Brasileiro (Decreto-Lei n\u00ba 4.657, de 4 de setembro de 1942) determina:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 4\u00ba. Quando a lei for omissa, o juiz decidir\u00e1 o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princ\u00edpios gerais de direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m o art. 126 do C\u00f3digo de Processo Civil se refere aos costumes:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 126. O juiz n\u00e3o se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei. No julgamento da lide caber-lhe-\u00e1 aplicar as normas legais; n\u00e3o as havendo, recorrer\u00e1 \u00e0 analogia, aos costumes e aos princ\u00edpios gerais de direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a lei \u00e9 criada mediante declara\u00e7\u00e3o solene por um \u00f3rg\u00e3o competente, no costume as normas formam-se espontaneamente. S\u00e3o as pessoas que vivem em sociedade que acabam por criar as normas costumeiras e n\u00e3o o fazem de maneira deliberada, como no caso da cria\u00e7\u00e3o da lei pelo legislador.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o do costume \u00e9 difusa, ningu\u00e9m pode precisar a data em que um costume tenha se formada, tratando-se de um longoprocesso de transforma\u00e7\u00e3o de um mero h\u00e1bito em um costume jur\u00eddico.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio social, muitas condutas se repetem. Quando essa repeti\u00e7\u00e3o for acompanha pela consci\u00eancia da sua obrigatoriedade, estamos diante do costume, diante de uma norma jur\u00eddica consuetudin\u00e1ria (do latim \u201cconsuetudo\u201d, que significa costume).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos finais de semana, por exemplo, temos o h\u00e1bito de comer pizza. Mas essa conduta n\u00e3o configura um costume jur\u00eddico, uma vez que ningu\u00e9m se sente obrigado a se comportar dessa maneira; e, se algu\u00e9m deixar de comer pizza num final de semana, n\u00e3o ser\u00e1 criticado como tendo descumprido alguma obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fila, as coisas s\u00e3o diferentes: temos o h\u00e1bito de, chegando por \u00faltimo, tomar o \u00faltimo lugar na fila; e o fazemos porque nos sentimos obrigados. Caso \u201cfuremos\u201d a fila, somos imediatamente criticados pelas outras pessoas que est\u00e3o na fila e sabemos que nossa conduta foi errada.<\/p>\n\n\n\n<p>No direito romano e no direito medieval, o costume desempenhava um papel muito importante, constituindo a principal fonte do direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Como as pessoas nascem e crescem no meio de uma comunidade, comunidade que tem os seus usos e costumes, as normas costumeiras aparentam ser normas \u201cnaturais\u201d, normas que sempre foram observadas por n\u00f3s porque ensinadas pelos nossos pais, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa normas eram muito consideradas pelo fato de serem criadas pela pr\u00f3pria sociedade,que delas se serve para se regular. E, caso o costume viesse a se mostrarinadequado, a pr\u00f3pria sociedade trataria de o eliminar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi apenas com o Ilumismo, no s\u00e9culo XVIII, que o costume passou a ser duramente criticado como uma maneirairracional de regular a sociedade. De fato, muitas normas costumeiras acabam se tornandoanacr\u00f4nicas, enrijecendo certas pr\u00e1ticas sociais e impedindo o dinamismo da sociedade. A pr\u00f3rpia tradi\u00e7\u00e3o passou a ser vista com suspeita, acarretando um menosprezo pelo costume.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XIX, a lei se tornou a principal fonte do direito e o costume come\u00e7ou a ser aceito apenas nos casos em que n\u00e3o contrarie o que a pr\u00f3pria lei disp\u00f5e \u2013 proibi\u00e7\u00e3o do costume \u201ccotra legem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, o costume continua uma importante fonte do direito, especialmente para alguns ramos do direito, como o Direito do Trabalho. Muitos dos nossos direitos trabahistas nasceram como normas consuetudin\u00e1rias, como o d\u00e9cimo-terceiro sal\u00e1rio, nascido como gratifica\u00e7\u00e3o paga pelos empregadores aos seus empregados nos dias que antecediam o Natal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O costume pode ser:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cContra legem\u201d: costumes que s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 lei. Por exemplo: dirigir falando ao celular.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPraeterlegem\u201d: costumes paralelos ao que disp\u00f5em as leis. Por exemplo, o cheque pr\u00e9-datado. O cheque \u00e9 uma modalidade de pagamento a vista. No Brasil, contudo, h\u00e1 o \u2018costume\u2019 de utilizar cheques como modalidade de pagamento a prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSecundumlegem\u201d: costumes conforme a lei. Por exemplo, determina o C\u00f3digo Civil:<\/p>\n\n\n\n<p>Art. 569. O locat\u00e1rio \u00e9 obrigado:(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p>II &#8211; a pagar pontualmente o aluguel nos prazos ajustados, e, em falta de ajuste, segundo o costume do lugar; (&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como vimos acima, n\u00e3o \u00e9 aceito o costume contr\u00e1rio \u00e0 lei \u2013 \u201ccontra legem\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong>Analisemos a seguinte ementa:<\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>APELA\u00c7\u00c3O C\u00cdVEL. DIREITO DO CONSUMIDOR. CHEQUE PREENCHIDO COM DATA ERRADA E RETIFICADO NO VERSO. LACUNA DA LEI. APLICA\u00c7\u00c3O DE COSTUMES. CARACTERIZADA A FALHA NA PRESTA\u00c7\u00c3O DE SERVI\u00c7O. DANO MORAL CONFIGURADO PELA DEVOLU\u00c7\u00c3O INDEVIDA DE CHEQUE. MANUTEN\u00c7\u00c3O DA SENTEN\u00c7A. Na aus\u00eancia de direito positivo aplic\u00e1vel \u00e0 esp\u00e9cie, recorre-se ao chamado direito subsidi\u00e1rio, ou seja, utilizam-se os costumes, a jurisprud\u00eancia, os princ\u00edpios gerais do direito, a analogia e a equidade. Assim, ainda que n\u00e3o haja uma norma positiva que obrigue as institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias a receberem o cheque com data retificada, a reiterada aceita\u00e7\u00e3o de tal pr\u00e1tica configura-se um costume que tem o cond\u00e3o de legitimar as expectativas da consumidora acerca da validade e regularidade do t\u00edtulo. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria FEBRABAN &#8211; Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos &#8211; emite, anualmente, um comunicado no qual o h\u00e1bito \u00e9 reconhecido. A imposi\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias em desconformidade com os usos e costumes constitui pr\u00e1tica abusiva e representa falha na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, na forma do artigo 39, II do C\u00f3digo de Defesa do Consumidor. O recorrente, embora tenha alegado a regularidade de seus servi\u00e7os, n\u00e3o comprovou qualquer das excludentes de responsabilidade legais. O dano moral encontra-se configurado pela devolu\u00e7\u00e3o indevida do cheque. Aplica\u00e7\u00e3o da S\u00famula 388 do Superior Tribunal de Justi\u00e7a. Verba reparat\u00f3ria fixada em R$ 5.000,00 (cinco mil reais), que n\u00e3o merece ser reduzida, por n\u00e3o ser exorbitante, mas sim irris\u00f3ria, embora n\u00e3o possa ser majorada por for\u00e7a da veda\u00e7\u00e3o \u00e0 reformatio in pejus. Recurso em confronto com s\u00famula do Egr\u00e9gio Superior Tribunal de Justi\u00e7a. Art. 557, caput, do C\u00f3digo de Processo Civil. NEGATIVA DE SEGUIMENTO.(TJ-RJ &#8211; APL: 00113760720128190212 RJ 0011376-07.2012.8.19.0212, Relator: DES. ALCIDES DA FONSECA NETO, Data de Julgamento: 16\/01\/2014, VIG\u00c9SIMA TERCEIRA CAMARA CIVEL\/ CONSUMIDOR, Data de Publica\u00e7\u00e3o: 23\/01\/2014 15:22)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe norma de direito positiva aplic\u00e1vel ao caso concreto. Desta forma, com base no artigo 4\u00ba da Lei de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s Normas do Direito Brasileiro,foi aplicado o costume para fundamentar sua decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Autora emitiu um cheque com rasura na data indicando a data correta no verso, o banco devolveu o cheque em virtude da rasura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ingressou em ju\u00edzo pleiteando repara\u00e7\u00e3o em virtude da falha na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, ou seja, a n\u00e3o compensa\u00e7\u00e3o do cheque acarretou preju\u00edzo para Autora. O Banco, em sua defesa, alegou a inexist\u00eancia de legisla\u00e7\u00e3o que o obriga a compensar cheques rasurados.<\/p>\n\n\n\n<p>A a\u00e7\u00e3o, contudo, foi julgada totalmente procedente sob o fundamento de que a inexist\u00eancia de norma \u00e9 suprida pelo costume do mercado em aceitar rasuras nas datas dos cheques, logo, a Autora tinha legitima expectativa da compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Inconformado, o Banco apelou ao TJ-RJ que, em decis\u00e3o monocr\u00e1tica do Relator Desembargador, Alcides da Fonseca Neto, negou seguimento ao recurso, confirmado a decis\u00e3o de primeiro grausob os mesmos fundamentos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h3>\n\n\n\n<p>FERRAZ J\u00daNIOR, T\u00e9rcio Sampaio.&nbsp;<strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao Estudo do Direito<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>MAXIMILIANO, Carlos.&nbsp;<strong>Hemen\u00eautica e Aplica\u00e7\u00e3o do Direito<\/strong>. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>PALMER, Richard E.&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica.<\/strong>&nbsp;Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>STRECK, Lenio Luiz.&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica Jur\u00eddica e(m) Crise<\/strong>. Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costumes Costume \u00e9 um dos meios de integra\u00e7\u00e3o do direito, um dos meios de preenchimento das lacunas do ordenamento jur\u00eddico. 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