{"id":5084,"date":"2022-11-09T18:53:14","date_gmt":"2022-11-09T18:53:14","guid":{"rendered":"https:\/\/teo.com.br\/?p=5084"},"modified":"2022-11-09T18:53:14","modified_gmt":"2022-11-09T18:53:14","slug":"a-figura-do-legislador-racional-hermeneutica-pos-giro-linguistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/2022\/11\/09\/a-figura-do-legislador-racional-hermeneutica-pos-giro-linguistico\/","title":{"rendered":"A figura do Legislador Racional. Hermen\u00eautica p\u00f3s-giro lingu\u00edstico"},"content":{"rendered":"\n<p><sub>Compreender que o movimento de codifica\u00e7\u00e3o do direito, que se desenvolveu no s\u00e9culo XIX, foi entendido como uma cria\u00e7\u00e3o racional do direito: as normas s\u00e3o dispostas de maneira organizada dentro de um mesmo diploma legal e s\u00e3o criadas ao mesmo tempo, de maneira a escapar ao capricho das determina\u00e7\u00f5es pontuais e arbitr\u00e1rias dos reis ou \u00e0 lenta elabora\u00e7\u00e3o do direito costumeiro, de conte\u00fado confuso e muitas vezes irracional.<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Legislador&nbsp;Racional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Santiago_Nino\">Carlos Santiago Nino<\/a> (1943-1993) foi um fil\u00f3sofo e jurista argentino. Para explicar a dogm\u00e1tica jur\u00eddica (a forma que a ci\u00eancia do direito assumiu a partir do s\u00e9culo XIX nos pa\u00edses da fam\u00edlia romano-germ\u00e2nica), ele criou a figura do Legislador Racional.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento de codifica\u00e7\u00e3o do direito, que se desenvolveu no s\u00e9culo XIX, foi entendido como uma cria\u00e7\u00e3o racional do direito: as normas s\u00e3o dispostas de maneira organizada dentro de um mesmo diploma legal, as normas s\u00e3o criadas ao mesmo tempo, de maneira a escapar ao capricho das determina\u00e7\u00f5es pontuais e arbitr\u00e1rias dos reis ou \u00e0 lenta elabora\u00e7\u00e3o do direito costumeiro, de conte\u00fado confuso e muitas vezes irracional.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que o direito \u00e9 cria\u00e7\u00e3o racional, os juristas acabaram por conferir ao sistema jur\u00eddico e \u00e0s normas que o comp\u00f5em uma s\u00e9rie de propriedades: precis\u00e3o, sentido claro e \u00fanico das suas disposi\u00e7\u00f5es, completude (o direito prop\u00f5e solu\u00e7\u00e3o para todo e qualquer caso), coer\u00eancia (as normas n\u00e3o se encontram em conflito dentro do sistema jur\u00eddico) etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia do direito (ou dogm\u00e1tica jur\u00eddica), ao estudar e descrever o direito, acaba por efetuar uma reformula\u00e7\u00e3o das normas jur\u00eddicas, com o objetivo de aproxim\u00e1-las daqueles ideais racionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante notar que se trata de uma atividade encoberta: os juristas afirmam que se limitam a descrever o direito (como se dissessem: \u201cn\u00f3s, juristas, devemos respeitar a lei, n\u00e3o cabe a n\u00f3s criar nem mudar o sentido do direito, que \u00e9 criado apenas pelo legislador\u201c), mas, ao final, o que acabam por fazer \u00e9 reconstruir o direito de modo a torn\u00e1-lo preciso, coerente, completo etc&#8230; .<\/p>\n\n\n\n<p>O direito, na realidade, apresenta conflitos de normas, lacunas, disposi\u00e7\u00f5es permitem v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, diferentes sentidos. A dogm\u00e1tica jur\u00eddica, contudo, ao estudar o direito, reelabora o sentido das suas normas, de maneira que esses \u201cdefeitos\u201d desapare\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p>Para conseguir reelaborar o direito, a dogm\u00e1tica jur\u00eddica cria uma fic\u00e7\u00e3o, a figura do Legislador Racional. Como ela pressup\u00f5e a racionalidade do Legislador, ao se deparar com duas normas que se encontram em conflito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Exemplo: &#8220;<\/strong>entre N1 \u201c\u00e9 permitido o acesso \u00e0 internet durante as aulas\u201c e N2 \u201c\u00e9 proibido o acesso \u00e0 internet durante as avalia\u00e7\u00f5es\u201d, a dogm\u00e1tica \u201cdescreve\u201d o direito como coerente, isto \u00e9, elimina o conflito dizendo, no caso de uma avalia\u00e7\u00e3o, o acesso \u00e0 internet \u00e9 proibido, enquanto que, n\u00e3o se tratando de avalia\u00e7\u00e3o, o acesso \u00e9 permitido.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Essas s\u00e3o as propriedades do Legislador Racional:<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>a)<\/strong>&nbsp;ele \u00e9 \u00fanico: apesar da exist\u00eancia de leis municipais, estaduais e federais, todo o ordenamento jur\u00eddico \u00e9 fruto de uma \u00fanica vontade;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>b)<\/strong>&nbsp;ele tem perman\u00eancia ao longo do tempo: ainda que os vereadores, deputados, senadores morram, o Legislador n\u00e3o morre;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>c)<\/strong>&nbsp;\u00e9 onisciente, ele conhece todos os elementos f\u00e1ticos sobre os quais as normas jur\u00eddicas incidem; assim como todas as normas jur\u00eddicas do sistema jur\u00eddico, que regulam todos os casos poss\u00edveis;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>d)<\/strong>&nbsp;\u00e9 justo, sempre se atribui a ele a solu\u00e7\u00e3o mais justa;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>e)<\/strong>&nbsp;ele \u00e9 coerente, j\u00e1 que a sua vontade n\u00e3o pode se contradizer;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>f)<\/strong>&nbsp;ele \u00e9 sempre preciso, pois, apesar das limita\u00e7\u00f5es da linguagem, o sentido da sua vontade, expressa por meio das normas, \u00e9 claro e un\u00edvoco;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>g)<\/strong>&nbsp;ele \u00e9 finalista, ao criar as normas sempre tem alguma inten\u00e7\u00e3o;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>h)&nbsp;<\/strong>\u00e9 econ\u00f4mico, n\u00e3o usa palavras desnecess\u00e1rias, nem as normas criadas s\u00e3o redundantes;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>i)<\/strong>&nbsp;\u00e9 operativo, pois todas as normas por ele criadas t\u00eam aplicabilidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h3>\n\n\n\n<p>FERRAZ JR., Tercio Sampaio.&nbsp;<strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao Estudo do Direito: t\u00e9cnica, decis\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o.<\/strong>&nbsp;5 ed. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>BOUCAULT,&nbsp; Carlos Eduardo de Abreu; RODRIGUEZ, Jos\u00e9&nbsp; Rodrigo (Orgs.).&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica plural:&nbsp;possibilidades justifilos\u00f3ficas em contextos imperfeitos<\/strong>. S\u00e3o Paulo:&nbsp;Martins Fontes, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>CAMARGO, Margarida Maria Lacombe.&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica e argumenta\u00e7\u00e3o:&nbsp;uma contribui\u00e7\u00e3o ao estudo do direito.&nbsp;<\/strong>3.ed. Rio de Janeiro:&nbsp;Renovar,&nbsp;2003.<\/p>\n\n\n\n<p>PERELMAN, Cha\u00efm.&nbsp;<strong>Tratado da argumenta\u00e7\u00e3o: a nova ret\u00f3rica<\/strong>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>RANGEL J\u00daNIOR, Hamilton.&nbsp;<strong>Manual de l\u00f3gica jur\u00eddica aplicada.&nbsp;<\/strong>S\u00e3o Paulo: Atlas, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>MAXIMILIANO, Carlos.&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica e aplica\u00e7\u00e3o do direito<\/strong>. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>na\u00e7\u00e3o. 5 ed. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>BOUCAULT,&nbsp; Carlos Eduardo de Abreu; RODRIGUEZ, Jos\u00e9&nbsp; Rodrigo (Orgs.).&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica plural:&nbsp;possibilidades justifilos\u00f3ficas em contextos imperfeitos<\/strong>. S\u00e3o Paulo:&nbsp;Martins Fontes, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>CAMARGO, Margarida Maria Lacombe.&nbsp;<strong>Hermen\u00eautica e argumenta\u00e7\u00e3o:&nbsp;uma contribui\u00e7\u00e3o ao estudo do direito.&nbsp;<\/strong>3.ed. Rio de Janeiro:&nbsp;Renovar,&nbsp;2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender que o movimento de codifica\u00e7\u00e3o do direito, que se desenvolveu no s\u00e9culo XIX, foi entendido como uma cria\u00e7\u00e3o racional do direito: as normas s\u00e3o dispostas de maneira organizada dentro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5085,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[300],"tags":[299,301,304,302,305,303],"class_list":["post-5084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direito","tag-constitucional","tag-direito","tag-filosofica","tag-hermeneutica","tag-juridica","tag-uninove"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5084\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teo.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}